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terça-feira, 19 de abril de 2016

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Carta a um melhor amigo...

Caro amigo,
mais uma vez faltamos com a nossa palavra. Sei que você já deve nos convidar com a desconfiança daqueles que já foram enganados por muitas e muitas vezes. Sei também que minhas palavras já não devem convencê-lo da veracidade de minhas desculpas. Eu mesmo não acreditaria que, por mais de quinze anos, meus “melhores amigos” (nem sei se ainda merecemos tão honroso título, meu caro amigo) nunca conseguiram me visitar nos aniversários, no meu casamento, no nascimento de meu filho (Como vai o pequeno Dodô?).
Exatamente por saber que de nada mais vale minhas palavras é que lhe envio a notícia, documento incontestável, de nosso último fracasso.
Já estávamos no ônibus, eu e Julieta, malas despachadas, indo até o avião quando uma funcionária, desconcertada, nos avisou do ocorrido. Eu ainda perguntei a ela “O avião foi sem a gente?” e ela apenas disse “É”.
Mais uma vez. Mais uma vez.
Nossas malas chegarão e nós permaneceremos.
Julieta manda beijos à Ofélia e diz ainda guardar o guia de Moscou. Ainda tem esperanças de devolvê-lo em mãos. Eu nada mais prometo, meu amigo.

Um fortíssimo abraço, 

Fourmi.

*Nosso figurinista Tulio Costa nos mostrou essa notícia que saiu hoje no UOL.
http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/02/04/aviao-decola-para-o-rj-e-passageiros-sao-esquecidos-em-aeroporto.htm

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Experimento Cena 5 (19/08/2015)

Na última quarta-feira, fizemos um experimento da CENA 5 - A PARTIDA, penúltima cena da peça, baseada no conto Os Cativos de Longjumeau, de León Bloy.


(Um rádio está ligado, possivelmente uma vitrola antiga com algum disco francês. A luz vai crescendo aos poucos e revela o casal, cada um sentado de um lado da sala, encarando seu passaporte, fixo, segurando-o na mão. Malas prontas no canto.)


- Sabe que uma vez eu ouvi falar de uma mulher que queria tanto, mas tanto viajar (e, ao mesmo tempo, não podia, sei lá porquê) que se dividiu em duas. Uma ficou e uma viajou!



(trechos de FANTASMAGORIA CARNE, de Paloma Franca Amorim)
- fotos tiradas por Luiza Meira Alves no ensaio do dia 19/ago/2015 durante experimento cênico.

domingo, 22 de março de 2015

Por não estarem distraídos

(texto-inspiração trazido pela diretora aos atores, sobre o sr. e a sra. Fourmi)

sobre os Fourmi
sobre o cárcere em Longjumeau
sobre a tragédia dele e dela

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A Partida (três quadros sem notas)

DE PALOMA FRANCA AMORIM

QUADRO I

(Há três malas muito arrumadas em cena e um móvel antigo com gaveta. Ele e ela se olham ternamente. Ela começa a rir desmedidamente enquanto ele dança e balbucia algumas frases de La Vie en Rose. Ela fala algumas palavras em francês provocando-o uma brincadeira linguística/sexual. Começam a rir alto. Comemoram a possibilidade da partida. Ouve-se do apartamento do andar de baixo vassouradas dos vizinhos pedindo silêncio.)


ELA 
(Para o teto, gritando aos vizinhos) Não abriremos mão do francês!! (Continua falando mais alto em francês, Ele começa a cantar La Vie Em Rose com mais ênfase. Os dois dançam, transitam da euforia para o choro durante a dança) Eles nos odeiam.

ELE
(Deixa o abraço e abre um mapa) Aqui! Está vendo? Fica a quatro mil quilômetros, não sentirão nossa falta e nem nós a deles. Está tudo pronto?

ELA
Tudo pronto. E os passaportes? (Procura os passaportes) Onde você guardou os passaportes?! On-de!? Onde você guardou os passaportes?! Onde foi?! (Vai desfazendo a arrumação das malas em fúria). Onde você guardou!?!? Ah, que bom... Estão aqui. Vou guardá-los aqui (com doçura), não os perderemos mais. (Guarda-os no bolso do casaco).

ELE
É melhor que partamos imediatamente para a estação, não quero perder o trem dessa vez.

ELA
Sim! (Apressando-se em rearrumar as malas, mas com cuidado e delicadeza) Sim! Antes, no entanto, eu gostaria de... (Abraça-o) Eu gostaria de me perder durante horas nesse teu abraço, gostaria de gastar aqui séculos nesses poucos minutos que nos restam... Nessa casa... Nesse lugar. Eu duraria muito tempo no tempo em que deslizo sobre os teus braços, assim, molinha molinha... Como água. Eu ficaria a eternidade nesses poucos minutos que nos restam. Nessa casa... Nesse lugar. Eu diria adeus durante horas. Faria a palavra durar o tempo de um dia inteiro, ela caberia em minha boca como se fosse uma grande e interminável massa de ar e eu tivesse que me expandir por inteira para poder enunciá-la. Isso duraria horas. Eu falaria em um alto-falante para que toda essa bosta de cidade pudesse ouvir sem poder se queixar. (Fala como em câmera lenta) A-DE-US. Como é bom. Como é boa essa sensação de fazer tudo caber na boca. (Começa a falar desmedidamente em francês, histericamente, gritando. Mais uma vez o barulho da vassourada)

ELE
Malditos. Vamos logo, se sairmos pelos fundos não precisaremos encontrar a velhota.

ELA
E nem o zelador.

ELE
E talvez possamos desviar do carteiro seguindo pela rua de baixo. 

ELA
Mas e os meninos do futebol?

ELE
Passaremos por eles correndo.

ELA
Com as malas não será possível.

ELE
Será patético. (Ambos riem)

ELA
Vamos. E os passaportes? Onde você os colocou? 

ELE
Foi você a última a tocar neles. 

ELA
Onde estão?! Onde estão!? Os passaportes meu deus!! 

ELE 
(Abre uma das malas, encontra-os) Aqui. Estão aqui.

ELA
Que bom. 

ELE
É melhor eu carregá-los aqui no bolso. 

ELA
Sim. Vamos?

ELE
Vamos!

(Saem. Ela volta.)

ELA
Os passaportes! (Encontra-os na gaveta de um móvel antigo. Sai) 
  
QUADRO II

(Ele e ela estão sentados na plataforma da estação. Começa a chover sobre o banco. Eles precisam ir para um lugar seco em que não há assentos. Ficam de cócoras, ao lado de suas malas, de mãos dadas. Ele tira o chapéu e começa a afrouxar a camisa. Aos poucos os dois vão ficando cansados. O tempo passa. Os dois deitam no chão e dormem.) 

ELA
(Murmurando no meio da soneca) As passagens... Não temos passagens.

(Passa um homem e põe dinheiro no chapéu d’Ele, como que oferecendo uma esmola ao casal que dorme).

QUADRO III

(Passadas algumas horas. O chapéu está cheio de dinheiro. Ele e Ela despertam)

ELE
(Constatando as esmolas) Vamos comprar as passagens e viajaremos de primeira classe! 

(Um senta ao lado do outro, estão no vagão do trem. Tudo é muito bonito e luxuoso)



ELA
E os passaportes?

ELE
Estavam com você.

ELA
Merda! Os passaportes!? (Começa novamente a desarrumar a mala). Onde estão os passaportes?!! (Novamente o ritual histérico de busca. Ele os encontra no chapéu).

ELE 
Aqui, estão aqui.

(Ambos se sentam ansiosos pela partida. No circuito sonoro do trem é anunciado que o veículo está partindo. Ele e Ela percebem que o trem não se move. Percebem os vagões dianteiros indo embora. Eles ficam no trem parado. Transitam da tristeza ao riso. Ele entoa frases de La Vie en Rose)

- exercício dramatúrgico a partir do conto Os Cativos de Longjumeau de León Bloy e de improviso dos atores.
- fotos tiradas no ensaio do dia 20/out/2014 durante improviso dos atores a partir do exercício dramatúrgico.

sábado, 18 de outubro de 2014

OS CATIVOS DE LONGJUMEAU, de León Bloy




Os Fourmi esperam o trem partir
(...) ... Pela décima ou vigésima vez, caro amigo, faltamos com nossa palavra de um modo infame. Por mais paciente que você seja, suponho que já deve estar cansado de nos convidar. A verdade é que dessa última vez, como das anteriores, não temos desculpa, minha mulher e eu. Tínhamos lhe escrito dizendo que contasse conosco e que não tínhamos absolutamente nada para fazer. No entanto, perdemos o trem, como sempre.

Faz quinze anos que perdemos todos os trens e veículos públicos, façamos o que façamos. É horrivelmente estúpido, é de um ridículo atroz, mas começo a acreditar que o mal não tem remédio. Somos vítimas de uma grotesca fatalidade. Não há nada a fazer. Para pegar o trem das oito, por exemplo, planejamentos nos levantar as três da manhã, e até passar a noite em claro. Ora, meu amigo, pois no último momento a lareira se incendiava, no meio do caminho eu torcia o pé, o vestido de Julieta enganchava em algum espinheiro, acabávamos dormindo na sala de espera, sem que nem a chegada do trem nem os gritos do funcionário nos acordassem a tempo, etcétera, etcétera...Da última vez esqueci meu porta-moedas. (...)

(trecho de Os Cativos de Longjumeau, ANTOLOGIA DA LITERATURA FANTÁSTICA, p. 110)

- fotos tiradas no ensaio do dia 15/out/2014 durante improviso dos atores