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terça-feira, 19 de abril de 2016

quarta-feira, 2 de março de 2016

domingo, 23 de agosto de 2015

Experimento Cena 4 (03/08/2015)

A quarta cena da nossa peça é baseada no conto Casa Tomada, do argentino Julio Cortázar, e se chama IRMÃOS GÊMEOS. Segue algumas imagens do nosso experimento e tiradas durante um ensaio realizado no Tendal da Lapa.


- Eu estou sentada em uma cadeira que fica no corredor entre a realidade e o pântano. Mamãe, papai... Vovó, vovô... Eu e você aqui... Mantendo a casa limpa, distante da mácula do tempo. Quem envelheceu fomos nós. Essa necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa.



- Também ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que vai dar na porta. Eu me joguei contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

(trechos de FANTASMAGORIA CARNE, de Paloma Franca Amorim)
- fotos tiradas por Luiza Meira Alves nos ensaios do dia 03/ago/2015 durante experimento cênico e ensaio.

domingo, 12 de abril de 2015

Uma casa tomada.

POR LIPE LIMA


CAMBIARSE

Casa Tomada é um Tchekhov argentino.
Irene e eu (não eu que escreve, mas eu que é escrito) assistem a vida passar e não conseguem mudar.
São comprimidos pela força trágica da vida.

Tchekhov diz: Como a vida é dura.
E Cortázar, pra mim, responde: A vida não é dura, ela passa.
Ela passa
e expulsa.
Joga Irene e eu pra rua de onde vieram.
E Eu joga a chave no bueiro.
Pra ninguém
viver a vida de Irene e eu e os pais e o avô paterno e os bisavôs.

Casa Tomada, pra mim, possui muito movimento – precisa ter movimento, precisa ter mudança, precisa ter ação.
Os dois fazem muito, limpam a casa, tricotam, cozinham, devoram livros. Tudo isso é preenchido de sentido, de emoção, de transformação.
Através de todas essas ações, Irene e eu precisam buscar o mundo.
(Mas nada de bom chega a Argentina desde 1939.
Eles estão presos em 1939.
Eles precisam sair de 1939, abandonar os dois pretendentes de Irene e María Esther.)

Irene e eu são frágeis
E se prendem à casa para não desaparecerem
Para não se esvaírem pelo mundo
A certeza deles é a casa
O resto é dúvida.
Dúvida de alma e não de corpo.

A vida os expulsa para as dúvidas.
Despeja-os no mundo
Grita em desespero: MUDEM!

E Irene e eu tentam improvisar
Se esforçam pra mudar
E como num jazz
Se entortam
Se contorcem
Descompassam
Perdem o tom
Que tom?.

(Esse texto vai de Dó menor a Sol maior. Do lento pro rápido. Termina em pausa. Jogar a chave para o mais longe possível)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Travessia I

POR BARBARA RIETHE

Para atravessar esse caminho é preciso o esforço da imagem em ação. Que começa com uma dança calma entre ele e ela, dançando suas próprias dúvidas. Começa assim, com uma música que provoca uma quase histeria. Quase. Eles ainda se contêm, dentro de si, na contra ação dos músculos e na onda do movimento, se encontrando, engalfinhando, desencontrando.
Ele começa a correr, com medo, e enrolar-se inteiro e esconder-se no vazio. Ela se aproxima como chicote. Ele grita.
- Você acredita em fantasmas? – diz ela, como corpo fugidio que pergunta para os músicos e para todos os presentes na sala. Pergunta a todos, absolutamente.
VOCÊ
ACREDITA
EM
FANTASMAS?
Movimento suspenso no espaço, tempo em pausa.
Ele responde: EU não. Eu não Eu.... Não. Não, eu, não acredito em fantasmas. Fantasmas eu não. Acredito em. Fantasmas.
Ela diz: Pois eu SIM.
Corpo que dança o horror alegre de sumir dali, corpo que vira fumaça. Risos que arrepiam a espinha.
E samba. Tudo vira samba e ela, que dança o horror, dança o amor. E o quanto pode ter de um em outro? Ele começa a se tornar mais cativo, mais Fourmi, e começam a enroscar-se um no outro, sendo dois. Os Fourmi que não conseguem sair do lugar. E ali morrem. Morrem assim mesmo, colados um no outro, dançando um pro outro a própria alegria e a própria agonia. É fugaz, foi rápido, tanto que olhos despercebidos não poderiam notar que se tratavam dos Fourmi, aquele aglomerado de pernas e braços. Mas era.
Era, como disse, até que uma parte se desgarra e começa a trotar pelo espaço. Uma pessoa-cavalo, era o que se via, para dizer diretamente o que aconteceu. Um homem-mulher-cavalo que ao encontrar um velho com um jornal na mão, imediatamente se torna arisco.
- Knocker! Porque você não pega esse jornal, heim? Aqui está! Não precisa ter medo de mim, shhh, shhh, shh!!!
E o cavalo arisco trota agressivamente em círculos, duvidando em aproximar-se ou não. Mas é um cavalinho curioso, esse!
- Shh, shh, calma Knocker. Sabe o que tem aqui, meu querido? Os cavalos vencedores da corrida de amanhã.
Relincho!
- Eu não quero seu dinheiro! Esse jornal é um presente.
Relincho furioso, arisco.
- Ah você não me conhece, mas eu te conheço. Não precisa ter medo. Pegue!

Knocker pega o jornal e arisco começa a cavalgar pelo espaço enquanto o velho, de longe, narra a partida:
- O azarão da jogada é o Pontadefaca, mas será possível que ele vai passar o Silver? Cabeça a cabeça minha gente, uma corrida histórica! É a chance de Tommy Knocker de ficar milionário se Pontadefaca vencer! E o fim da corrida se aproxima!! E Pontadefaca é o campeão!
E Knocker, que é mulher-homem-cavalo começa a correr, e saltar, com um cavalo feliz, indomável, livre, com o jornal entre os dentes.
Enquanto ele comemora, ouve-se a voz do velho que diz:
- E quando ele abre de fato o jornal...
Relincho!
- E vê que não eram os cavalos, nem a corrida...
Knocker-mulher-cavalo corre desesperadamente pelo espaço, ficando ofegante.
- Mas sim a notícia de sua morte no vagão de trem.
O cavalo relincha, descontroladamente, perdendo o ar, trotando quase sem energia, corpo disperso fugidio. Ela-Ela grita e cai no chão.

Caiu do cavalo, de dor. Ficou ali deitada, se entregando no chão. E ele, sentando ao lado. No espaço via-se um homem e uma mulher. Ela semi-morta e ele congelado, rígido, com olhos vivos que quase saltam da cara. Ele diz, pela boca dela, o seu desaparecimento.
- Olhe pra mim, ali deitada no chão – ele diz – Eu sou bonita não sou? Mas consumida pela dor. Essa doença que atrofia os músculos me mata. Eu peguei o meu melhor cavalo esta manhã e saí com ele. Agora estou aqui, no chão, prestes a virar vegetal. Eu vou virar, sim. Ninguém aparece.
Ela grita:
- Socorro! Meu cavalo... onde está meu cavalo?
- Pois eu sinto que há certo prazer em virar um vegetal. Não é uma perda, não. Apenas tenho que aprender a viver, sentir, amar como um vegetal. Sinto que não consigo mover minhas pernas. E logo vocês vão testemunhar minha transformação...
E enquanto ele fazia seu discurso, este de se tornar vegetal, ela enrijecia, aos poucos, seus músculos, respirando de uma certa forma, que dói em quem houve, uma respiração de agonia, quase sonora, de violino desafinado, com notas cada vez mais longas. Transforma-se tanto e de tal forma em agonia de morte, que diz:
- Por favor, senhor, deixe-me morrer. Eu não aguento mais.
Então o homem levanta-se da cadeira e aproxima-se dele (porque ela virou ele), mede seu pulso e diz:
- O senhor autoriza que eu o hipnotize, Valdemar?
- Sim!! – diz ele, quase morrendo, quase sumindo.
- Pois então, senhoras e senhores! Quem quiser se aproximar para ver o nosso moribundo Valdemar minutos antes de sua hipnose, fique à vontade. Vamos deter a morte aqui, meus senhores. Valdemar, preciso que você siga minha voz, quando eu contar até 3, você estará em transe hipnótico.
- Pelo amor de Deus, eu não ague...aguento mais.
- 1.....2.....3.
Valdemar paralisou-se completamente. Estava lá, homem-pedra, de olhos arregalados. Em silêncio, aparentemente sem dor, ou agonia. Aparentemente, porque seu olhos...
- Valdemar, você está me ouvindo?
- Sim.
- Você sente dor?
- Não.
- Você quer falar alguma coisa?
- Me deixe morrer, por favor. Por favor, me deixe morrer, eu não aguento mais.
Pausa.
- Não é possível morrer assim, senhoras e senhores.  – diz ele, sem jeito – Vamos, Valdemar, quando eu contar até 3 você vai abrir os olhos e voltar ao normal, sim?
- Por favor, acabe logo com isso. Ou me faça viver ou me mate, eu não posso mais!
- 1....2.....3!
O que se viu não é possível descrever plenamente em palavras. Viu-se um corpo contorcer-se de tal forma, que jamais poderia ser possível para o corpo humano. O rosto dele era tão terrível, como se representasse o pior do mundo, toda a agonia naquela face. E o som que saía da garganta era som de corda torta.
O médico, assustado, envergonhado de não ter o controle da situação, pergunta:
- Valdemar, você.... Você está bem?
- Eu....estou..morto.
E começa a gritar, de um jeito que te coloca do avesso.
- Valdemar, quando eu contar até 3 você vai voltar a vida, sim? 1....2....3!
Água espatifada no chão.
Só tem ele em cena. Ele que limpa toda a bagunça, e enquanto limpa, ele diz.
- Eu e Irene somos muito exigentes com limpeza. Temos hora para tudo, até meio dia já estamos com tudo pronto e eu faço o almoço. Irene adora tricotar. Irene?! Onde você está? Ela se esconde às vezes, para tricotar, como já falei. Eu fui casado. Não tem dia que eu não sinta falta da minha Maria Esther. (suspira) Irene tinha um pretendente, mas nunca se casou... Irene! Onde está você?
Aos pouco vemos Irene em um canto, sentada em meio a lã, que envolve ela e os móveis. Ela está parada, olhando para o nada. Olhos de mar.
- Bem, depois que eu faço o almoço eu saio para o centro, comprar mais lãs para Irene e conversar com os vizinhos de sempre.  Às vezes temos insônia. Pode-se ouvir de tudo na casa, à noite. Ouvimos a respiração, a tosse um do outro. Pressentimos a mão que leva ao interruptor do abajur. Voz de papagaio.
Ele repara que Irene está sentada.
Oh Irene, você está aí, venha me ajudar, querida. (se aproxima) Irene? (ela não se move) Ah, sim, precisamos dormir não é? Não fique assim, minha querida irmã, não fique! Vamos dormir, sim?
Ele deita-se no colo de Irene, que começa a cantarolar qualquer coisa. Vê-se que canta Michael Jackson, Queen, depois Billy Holiday , depois David Guetta. Levanta-se e começa a dançar, ao som de uma música em fuga, que puxa, que bate, que move o espaço. Música que expulsa. E logo seu irmão vira estátua, e só existe ela, no meio da sela, presa entre lãs aos móveis. 
Ela dança enroscando-se ainda mais na lã, prendendo os móveis em seu corpo.
Batem à porta.
Ela olha. Caminha com dificuldade, com o braço estendido. Caminha e arrasta os moveis atrás de si. Toca no trinco. Abre a porta.

(Blecaute)

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Travessia Fantástica


POR LIPE LIMA

Sexta passada fizemos uma travessia “acidental”.
Meio que sem querer, acabamos passando por todos os contos de uma só vez. No ensaio estavam eu e Barbara, Pedro e Caio na música.

A pedido de Olívia, que não estava naquele ensaio, farei uma descrição objetiva das transições que fizemos entre alguns contos. Transições quase inexistentes, que transformam ao invés de romper.

Os Vencedores de Amanhã -> Ser pó

Knocker agora é um cavalo. Viveu sua trajetória como um cavalo (confundindo-se com um, ou sendo um mesmo). Sua morte se dá como resultado de uma longa cavalgada – ou pelo cansaço da atriz que não aguenta mais e escorre pro chão. Nesse momento, Knocker já virou aquele que se transformará em cacto.

Ser pó -> Valdemar

O cacto vive seus instantes de agonia. Ele vai virar pó. Sabe de seu destino inevitável e decide se submeter ao processo proposto pelo hipnotizador. O hipnotizador então “acomoda” sua cobaia e prepara o experimento.

Valdemar -> Casa Tomada

É um momento de clímax. O hipnotizador faz a contagem para que Valdemar saia do transe e finalmente esteja livre pra morrer. 3, 2, 1; a gosma cai do alto (no improviso usamos água mesmo). O hipnotizador desce, pega um pano e começa a limpar a casa. Irene sai pra se secar. O irmão conversa com o público, conta histórias sobre a casa e sobre a irmã.

Casa Tomada -> Sozinha com sua alma

Irene se levanta enquanto o irmão sai de cena. Ela fica sozinha na casa. Dança com um emaranhado de lãs e fios que estão enroscados nos móveis. Prende-se nos fios. (dar a condição solitária da mulher foi difícil. Recorremos a frase “estou sozinha no mundo”) Alguém bate na porta. A música ajuda a tensão, como num filme de suspense. Ela caminha em direção a porta e arrasta com ela todos os móveis aos quais ela está presa pelos fios. Quando abre a porta, a peça acaba.

NOTA MENTAL: Esse não é um processo colaborativo.