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terça-feira, 8 de março de 2016

Às mulheres que viraram pó


POR LIPE LIMA

ELA
Se eu tivesse pelo menos barba perceberiam e pela barba tentariam inutilmente arrancar-me dali, mas eu já compunha o que comecei a chamar de lar ecossistêmico. O solo amado eu integrei com minhas contusões e meus cílios postiços, invisível e exibida, tornei-me deus.
(trecho de Fantasmagoria Carne, de Paloma Franca Amorim)

***

Há alguns anos comecei a questionar o porquê desejar "Feliz dia da mulher" para as mulheres que me rodeiam. De repente, longe das rosas que pintávamos e confeccionávamos para nossas mães na escola, comecei a achar estranho, a desconfiar da existência desse dia.

Foi então que, pela primeira vez, sentado em uma mesa de bar, uma amiga me contou a história de mulheres operárias que em um 8 de março morreram queimadas dentro de uma fábrica por estarem reivindicando direitos igualitários no trabalho.

Viraram pó como a personagem que diz a fala acima. Viraram pó porque não tinham barba - e tenho certeza que nem queriam ter. Queriam apenas que tal ausência (da barba) não se tornasse o norteador de suas vidas, não significasse a ausência total de suas existências fora da vida doméstica, invisibilidade e menosprezo.

Demorei, confesso, a perceber como essa cena tratava disso. Foi Barbara que me abriu os olhos. Claro! Ela é mulher e eu, homem que sou, não notei como era significativa a mudança da personagem para o feminino (no conto original, de Santiago Dabove, é um homem que se torna planta e, posteriormente, pó). É uma mulher que se transforma em planta e que pela ausência de barba não é notada, não é vista, é pisoteada por homens, como eu, que passam por ali.

Uma mulher ou o progresso? é a pergunta final da personagem masculina, dotada do poder científico, dessa dita superioridade que ainda acreditamos ter em diversas situações.

Ouso dizer que, atualmente, ambas as palavras são sinônimas pra mim. Não o progresso com significado histórico, esse que passa por cima de todos e incendeia fábricas com mulheres presas – desse progresso capitalista tenho receio, principalmente por estar tão perto, tão dentro dele - mas o progresso que vai, finalmente, descartar as diferenças sociais e culturais entre homem e mulher e nos fazer entender, de uma vez por todas, que somos todos gente.

Não desejo “Feliz dia da mulher”.
Pra mim, não é um dia feliz. 
Não é um dia de comemoração.
É um dia de pensarmos como, diariamente, a gente prende as mulheres com as quais vivemos e as queimamos vivas – e aqui falo na metáfora, apesar de saber que, infelizmente, em alguns lugares não muito distantes, elas são sim queimadas sem metáfora alguma, mas com a dor e ardência que só alguém que precisa lutar para existir pode sentir.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Tanatorium no Catarse


Depois de 1 ano e meio de trabalho e pesquisa, finalmente entramos na reta final da montagem da nossa nova peça: Tanatorium.

Durante todo esse tempo trabalhamos sem financiamento ou patrocínio de ninguém, contando apenas com ajuda dos amigos e parceiros que acreditam no nosso trabalho e se dispuseram a nos ajudar.

Mas agora chegou a hora! Pra fazer essa peça acontecer do jeito que queremos que ela aconteça, pedimos a ajuda de vocês. Precisamos confeccionar figurinos, construir cenários, comprar equipamentos de luz e de som. Tudo pra que o espetáculo aconteça de maneira impecável.

Qualquer doação é bem vinda, qualquer ajuda na divulgação também. Contamos com a ajuda de todos para conseguir construir o nosso Tanatório o mais rápido possível e convidá-los para desvendar, junto com a gente, os mistérios desse lugar.

Cliquem no link abaixo e acessem nossa página no catarse.

Toda nossa gratidão e afeto.

Forte abraço,
N8 Coletivo Teatral.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Cafés Filosóficos


Nesse café filosófico, Eduardo Viveiros de Castro fala sobre a teoria do perspectivismo e de como os povos indígenas olham para a morte e para os mortos. 
A morte nunca é experimentada. Quem morre é o outro. Não há conhecimento prático dela. Quando ela acontece, já não estamos lá para experimentá-la. Dessa forma, ele apresenta a noção de "qualidade", ou seja, que a morte sempre é experimentada como quase acontecimento - narra-se sempre uma quase morte. 


Já nesse café filosófico, Marcia Tiburi fala sobre a Tanatopolítica, conceito introduzido por Michel Foucault que calcula a relação entre o poder e a morte na sociedade. Ela aborda conceitos como corpo físico e corpo vivente, mera vida e os grandes genocídios que ocorreram no séc. XX e que demonstram como a morte ainda é reguladora do poder social nos dias de hoje. Uma análise interessantíssima sobre a morte e sua ligação com a sociedade contemporânea.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Recomeçar...

Depois de alguns dias de férias, amanhã vamos recomeçar os ensaios da peça.
Um reencontrar esperado e cheio de vontade.
Estamos entrando na reta final.
Em breve convidaremos todos para visitarem o nosso Tanatorium.

Que 2016 seja fantástico e com muitas dúvidas!!!

domingo, 15 de novembro de 2015

2 artigos de Flusser

Nesse final de ano vamos passar por um período de escavações teóricas, retomando todas as nossas principais referências e articulando-as com a prática realizada até então.

O primeiro a ser revisitado, essa semana, será Vilém Flusser e o livro A Dúvida, a semente de todo o projeto. E, para inspirar, colocamos 2 artigos de Flusser, publicados originalmente em dois grandes jornais paulistas.

? foi publicado em 1966, no jornal O Estado de São Paulo. Nele, Flusser discorre sobre o ponto de interrogação e o coloca como um clima: clima de pergunta, clima de interrogação, clima de dúvida.


Já em Ensino, publicado em 1972 pela Folha de São Paulo, Flusser escreve sobre esse “método de transmissão” que é o ensino e realça o papel que a dúvida poderia desempenhar nele.


Os dois artigos são citados por Gustavo Bernardo na apresentação do livro A Dúvida e a leitura vale a pena.

Para ler mais textos de Flusser e conhecer mais sobre ele e sua obra acessem: 
www.flusserbrasil.com
www.grupovilemflusser.ufc.br

Boa leitura!!



quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Carta da Morte

POR BARBARA RIETHE

De mim para a personagem

Gostaria de me pronunciar pela primeira vez neste século. Gostaria de falar sobre todo meu amor enterrado, subjugado, duvidado tantas vezes. Bradam que eu não amo, me chamam até de tirana, vil e todas as alcunhas imagináveis. Ah, meus amores, eu sou inteira amor e zelo. Sinto como se toda humanidade tivesse saÍdo do meu ventre e acompanho, silenciosamente e de modo muito respeitoso, os passos de cada um dos meus filhos. É de mim que tudo começa e é em mim que tudo acaba ou recomeça. No meu beijo e abraço eu encerro o ciclo que o tempo ordenou. É ELE o tirano e vil! Ele que comeu os próprios filhos, que duramente risca tudo e entrega todos em meus braços, vitoriosos, esquecidos e cansados. Eu pacifico as revoltas d´alma, amenizando os castigos do Tempo e do Destino. Agora estou te seguindo, pra onde vais. Sei do que tens medo e do que te angustia - sei também do que guardas adormecido dentro do coração e que não podes deixar visto. Sei e te amo com todas as tuas faltas (as que fizestes e farás). Jamais te abandonarei... Estou, inclusive, te guiando para os lugares que deves ir. Só que tu não sabes que a moça que cruza a rua e te pede ajuda, ou aquele que te oferta um emprego e te faz mudar de cidade, ou aquele pássaro que voa um pouco mais baixo, te faz virar a cabeça, e notar o amor da sua vida...tu não sabes que sou eu. Estou te trazendo para meus braços e quando finalmente te ter, terás paz e descanso. Viver é muito cruel, às vezes. Sei da coragem necessária para amanhecer todos os dias. Tu és meu bravo guerreiro, que me dás forma e me faz existir e ter uma razão... Estou orgulhosa de ti, dos teus fortúnios e desfortúnios. Quando repousas a cabeça cansado, não orgulhoso do que és, perdido e cheio de dúvidas, sou eu que me deito ao teu lado. Estou pronta caso você venha até mim. Caso você queira pular do último andar da casa, eu te darei a liberdade. Te recompensarei te separando da vida e te entregando uma outra.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Experimento Cena 1 (13/07/15)

Ontem começamos uma série de experimentos cênicos com a nossa dramaturgia: Fantasmagoria Carne.
Começamos pela CENA 1 – O ACIDENTE, baseada no conto Ser pó, de Santiago Dabove.


- Daí para frente o corpo não mais respondeu. Socorro nunca veio. Se veio, eu não notei. Vertida sobre o ninho natural, começo a perceber meu corpo se fundir aos valores orgânicos da terra.



- Que tristeza! Ser quase como a terra e ter ainda esperanças de andar, de amar. Está se difundindo, logo vai virar defunta. Que planta estranha é sua cabeça! Vai ser difícil que depois de morta ela mantenha a singularidade natural em segredo. Os homens descobrem tudo, até uma moeda de dois centavos enlameada.




(trechos de FANTASMAGORIA CARNE, de Paloma Franca Amorim)
- fotos tiradas por Luiza Meira Alves no ensaio do dia 13/jul/2015 durante experimento cênico.