sábado, 4 de abril de 2015

Referência para a morte.

POR BARBARA RIETHE

Referência visual/conceitual para a figura da Morte na cena de Prudente (Os Vencedores de Amanhã).


domingo, 22 de março de 2015

Por não estarem distraídos

(texto-inspiração trazido pela diretora aos atores, sobre o sr. e a sra. Fourmi)

sobre os Fourmi
sobre o cárcere em Longjumeau
sobre a tragédia dele e dela

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

(Clarice Lispector)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

SILÊNCIO! Há uma dúvida acontecendo aqui

POR LIPE LIMA

Hoje o ensaio foi sobre o silêncio.
No clima anárquico de um ensaio sem a diretora, eu e Barbara propusemos aos músicos, Pedro e Caio, um improviso com cara de “sessão aberta”.


IMPROVISO SOBRE O SILÊNCIO
Duração: 50 minutos
Com entradas e saídas
O improviso termina com o alarme do relógio

Aos atores:
Provocação #1: cada ator deve jogar com o universo, as personagens, os acontecimentos, os cenários, as ideias dos 8 contos, como quiser
Provocação #2: dar atenção aos momentos de pausa e movimento, de som e silêncio.
Provocação Infinita: ESCUTA EXTRAORDINÁRIA e SATS PODEROSO

Aos músicos:
Provocação #1: onde há música deixar existir o silêncio e onde há silêncio deixar existir a música.
Provocação #2: deixar a música acontecer como elemento independente na cena, com voz e discurso próprios.


Tentamos reunir nesse improviso algumas das inquietações geradas nos últimos ensaios, a respeito do silêncio, da permanência, do jogar e conter da energia, da pausa.
Convoquei também, durante o improviso, nosso trabalho com os animais totêmicos, tanto na forma explícita quanto na forma disfarçada (falo aqui da questão representação e vivência).
Cada um passou pelos contos que quis e, na cena, pudemos friccionar esses universos, confrontá-los e aceitá-los no mesmo espaço.

Por exemplo, um momento que Barbara era o hipnotizador de Valdemar e eu era Ch’ienniang, existindo no mesmo espaço/tempo da cena, mas em espaços/tempos outros da ficção. Ch’ienniang era Valdemar para o hipnotizador e o hipnotizador era a outra Ch’ienniang.
Aqui ocorreram coincidências na palavra e no movimento, como se os mundos colassem e descolassem rapidamente – pequenos momentos em que dois planos espaço-temporais se encontram. (Barbara citou física quântica aqui)

Testamos “Sozinha com sua alma” com a presença de um narrador. Em determinado momento, Barbara ficou sozinha no espaço e começou a existir na solidão da protagonista. Eu, atrás da estante, em cima de uma cadeira, só com cabeça a vista, comecei a narrar. Transcrevi um trecho do meu texto, na hora:

“Essa mulher teve filhos, teve marido, teve pai e mãe, avô e avó, teve amigos, conhecidos, teve uma vizinha com quem ela fofocava aos domingos de manhã antes de ir a missa, conhecia o açougueiro, o padeiro e gostava de ir ao parque pelas manhãs ver as pessoas correndo. Um a um, ela viu todos desaparecerem.
Essa mulher sofre de solidão, não a solidão burguesa daquele que não consegue se comunicar com outro. Ela está sozinha no mundo e sabe disso, todos os outros estão mortos. Os senhores que observam essa senhora sabem que ela está sozinha no mundo. Todos estão mortos”

Aquele medo de que a presença de um narrador pudesse interferir na força do conto se dissipou. Foi curioso contrapor a solidão da mulher a presença do público. Relativiza a existência dela e a do público. Talvez possa ser um caminho a ser pesquisado e chafurdado.
Também foi valioso abrir a percepção do passado dessa mulher, do que ela passou pra estar sozinha no mundo, de quanto passado ela tem (lembrei da nossa caminhada com Luiza, quando ela perguntou o que a gente leva do passado)

Falamos sobre as pausas que fedem. De como a dúvida pode acontecer pela permanência de algo “estático”. Do nada. Do silêncio em seu estado mais profundo de vir-a-ser qualquer coisa.

Tenho certeza que Barbara pode falar de mais alguns momentos interessantes.

Se tivesse que resumir em uma palavra, usaria a palavra JUSTAPOSIÇÃO.
O mais interessante do improviso foi abrir possibilidades de dissonância e de harmonia entre atores e música, ator e ator, ator e cena.

Pra variar, não tiramos nenhuma foto!